O Que Esta em Jogo
A história da imprensa no Brasil está diretamente ligada à chegada da família real portuguesa, em 1808. Até então, a colônia era proibida de ter tipografias, e qualquer publicação dependia de autorização da metrópole. O cenário mudou radicalmente quando Dom João VI, fugindo das tropas napoleônicas, transferiu-se para o Rio de Janeiro e, entre as primeiras medidas, autorizou a criação da Impressão Régia. Esse decreto abriu as portas para o nascimento do jornalismo no país.
Mas a resposta para a pergunta "quando foi lançado o primeiro jornal do Brasil?" não é tão simples. Existem duas datas que disputam o título: 1º de junho de 1808, quando o Correio Braziliense começou a circular em Londres, e 10 de setembro de 1808, quando a Gazeta do Rio de Janeiro foi impressa pela primeira vez no Rio de Janeiro. Entender essa diferença exige analisar o que cada um publicava, qual era seu alcance e, principalmente, o que significa "primeiro jornal do Brasil" — se o primeiro feito por brasileiros ou o primeiro impresso em território nacional.
Este artigo explora em profundidade essas questões, apresentando o conteúdo desses periódicos, seu papel político e as razões históricas que fazem do debate sobre a primazia um tema ainda relevante.
Na Pratica
O contexto da imprensa no Brasil pré-1808
Antes de 1808, a Coroa portuguesa mantinha um rígido controle sobre a comunicação na colônia. A chegada de livros, panfletos ou jornais era proibida, e qualquer tentativa de instalar uma tipografia era punida com severidade. O objetivo era impedir a circulação de ideias que pudessem inspirar rebeliões ou contestar o domínio português. Esse cenário só se modificou com a vinda da família real. Em maio de 1808, Dom João VI assinou o decreto que criou a Impressão Régia, permitindo a impressão de papéis oficiais, livros e periódicos. Com isso, os primeiros jornais brasileiros puderam enfim surgir.
A Gazeta do Rio de Janeiro: o primeiro jornal impresso no Brasil
A Gazeta do Rio de Janeiro foi lançada em 10 de setembro de 1808 pela Impressão Régia, sob a direção de Frei Tibúrcio José da Rocha. Era um jornal oficial do governo, com periodicidade de duas vezes por semana (às quartas e sábados). Seu conteúdo era voltado principalmente para notícias da família real, decretos oficiais e acontecimentos políticos e militares da Europa, em especial as guerras napoleônicas. Não havia espaço para críticas ou opiniões independentes; tratava-se de um veículo de propaganda e informação institucional.
A Gazeta circulou ininterruptamente até 1822, ano da Independência do Brasil. Sua importância histórica é inegável: foi o primeiro periódico a ser impresso em solo brasileiro, marcando o início oficial da imprensa nacional. Por muito tempo, a data de seu lançamento foi celebrada como o Dia da Imprensa no Brasil, até que a comemoração foi transferida para 1º de junho, em homenagem ao Correio Braziliense.
O Correio Braziliense: o primeiro jornal brasileiro (impresso no exterior)
Embora tenha saído antes — em 1º de junho de 1808 —, o Correio Braziliense foi impresso em Londres, por iniciativa de Hipólito José da Costa. Hipólito, um brasileiro exilado, usava o jornal como plataforma para criticar a administração portuguesa e defender ideias liberais. Diferentemente da Gazeta, o Correio Braziliense tinha um perfil analítico e político, publicando artigos de opinião, ensaios e denúncias sobre a corrupção, a ineficiência e o autoritarismo do governo colonial. Por isso, é considerado o primeiro jornal brasileiro em termos de autoria e propósito, ainda que não tivesse sido impresso no território.
A discussão sobre qual dos dois merece o título de "primeiro jornal do Brasil" envolve critérios diferentes: a Gazeta foi a primeira a ser impressa no Brasil; o Correio foi o primeiro a ser editado por um brasileiro e a abordar temas nacionais com espírito crítico. Ambos são marcos fundamentais da história da imprensa brasileira.
O que esses jornais falavam? Conteúdos e orientações editoriais
Gazeta do Rio de Janeiro
- Foco: notícias oficiais, decretos reais, movimentações da corte, guerra na Europa.
- Tom: favorável ao governo, sem espaço para opiniões divergentes.
- Público: funcionários públicos, comerciantes, elites ligadas à coroa.
- Periodicidade: duas vezes por semana.
- Tiragem: estimada em algumas centenas de exemplares, distribuídos principalmente no Rio de Janeiro.
Correio Braziliense
- Foco: análise política, crítica à administração colonial, defesa da liberdade de imprensa e do comércio.
- Tom: independente e combativo, com artigos assinados ou sob pseudônimo.
- Público: leitores brasileiros e portugueses instruídos, incluindo membros da elite insatisfeitos com o governo.
- Periodicidade: mensal, com cerca de 100 páginas por edição.
- Tiragem: chegou a circular em várias cidades brasileiras, apesar da censura.
Repercussão e legado
A Gazeta do Rio de Janeiro ajudou a consolidar a imagem de Dom João VI como soberano esclarecido e a divulgar as realizações do governo. Já o Correio Braziliense influenciou gerações de jornalistas e políticos, sendo um precursor do jornalismo crítico no Brasil. Ambos foram interrompidos em 1822, quando a Independência e a consequente reestruturação política levaram ao fim de suas publicações.
Hoje, o debate sobre qual é o "primeiro jornal do Brasil" continua. Em 2008, o governo federal reconheceu oficialmente o Correio Braziliense como o primeiro jornal brasileiro, transferindo o Dia da Imprensa de 10 de setembro para 1º de junho. Contudo, a Gazeta do Rio de Janeiro permanece como o marco da imprensa no território nacional.
Principais Características dos Primeiros Jornais Brasileiros
- Criação simultânea em 1808: ambos os jornais surgiram no mesmo ano, reflexo da abertura política proporcionada pela vinda da família real.
- Censura e liberdade: enquanto a Gazeta atuava sob controle direto do governo, o Correio Braziliense operava em Londres, longe da censura portuguesa.
- Suporte técnico: a Impressão Régia era a única tipografia autorizada no Brasil até 1821 – isso limitava a pluralidade de vozes.
- Periodicidade: a Gazeta saía duas vezes por semana; o Correio era mensal, mas com volume maior de conteúdo.
- Distribuição: a Gazeta era vendida em pontos fixos no Rio de Janeiro; o Correio era enviado por navio para várias cidades brasileiras.
- Duração: ambos duraram até 1822, mas por motivos diferentes – a Gazeta perdeu relevância com a Independência, e o Correio encerrou por decisão de seu editor.
- Impacto cultural: foram os primeiros veículos a estabelecer uma esfera pública de debate no Brasil, ainda que de forma incipiente.
Tabela Comparativa: Gazeta do Rio de Janeiro vs. Correio Braziliense
| Característica | Gazeta do Rio de Janeiro | Correio Braziliense |
|---|---|---|
| Data de lançamento | 10 de setembro de 1808 | 1º de junho de 1808 |
| Local de impressão | Rio de Janeiro (Brasil) | Londres (Inglaterra) |
| Editor/fundador | Frei Tibúrcio José da Rocha (nomeado pelo governo) | Hipólito José da Costa (iniciativa privada) |
| Periodicidade | Duas vezes por semana | Mensal |
| Conteúdo principal | Decretos oficiais, notícias da família real, guerra na Europa | Artigos políticos, críticas à administração colonial, ensaios liberais |
| Linha editorial | Governista, oficial, sem opinião divergente | Crítica, independente, defensora da liberdade de imprensa |
| Censura | Sofria censura prévia da Impressão Régia | Estava livre da censura portuguesa por ser impresso no exterior |
| Público-alvo | Elite carioca, funcionários públicos, comerciantes | Brasileiros e portugueses instruídos, simpatizantes do liberalismo |
| Fim da circulação | 1822 (com a Independência) | 1822 (encerramento voluntário) |
| Importância histórica | Primeiro jornal impresso no Brasil | Primeiro jornal brasileiro (editado por brasileiro e com conteúdo nacional) |
| Reconhecimento atual | Considerado o primeiro jornal em território brasileiro | Reconhecido como o primeiro jornal brasileiro (Dia da Imprensa em 1º de junho) |
Esclarecimentos
Qual foi exatamente o primeiro jornal do Brasil?
Depende do critério adotado. A Gazeta do Rio de Janeiro foi o primeiro jornal impresso em território brasileiro (10/09/1808). O Correio Braziliense foi o primeiro jornal brasileiro no sentido de ter sido fundado e editado por um brasileiro, com conteúdo voltado para o Brasil, embora impresso em Londres (01/06/1808). Atualmente, o governo brasileiro considera o Correio Braziliense como o primeiro jornal do país.
O que a Gazeta do Rio de Janeiro publicava?
A Gazeta publicava majoritariamente notícias oficiais: decretos reais, nomeações, movimentações da corte, além de informações sobre as guerras napoleônicas na Europa. Não havia espaço para artigos de opinião ou críticas ao governo. Seu conteúdo era institucional e favorável ao regime.
Por que o Correio Braziliense é considerado o primeiro jornal brasileiro, se era impresso em Londres?
Porque seu editor, Hipólito José da Costa, era brasileiro e o jornal foi concebido para circular no Brasil e debater questões brasileiras. Ele tratava de economia, política, administração colonial e liberdade de imprensa. Além disso, por ser impresso no exterior, conseguia escapar da censura portuguesa e oferecer uma visão independente.
Quando foi comemorado pela primeira vez o Dia da Imprensa no Brasil?
Durante muitos anos, o Dia da Imprensa foi celebrado em 10 de setembro, em referência ao lançamento da Gazeta do Rio de Janeiro. Em 2008, no bicentenário dos primeiros jornais, o governo federal alterou a data para 1º de junho, em homenagem ao Correio Braziliense, reconhecendo-o como o primeiro jornal brasileiro.
Quantos exemplares circulavam desses jornais?
Não há registros precisos de tiragem. Estima-se que a Gazeta do Rio de Janeiro tenha circulado com algumas centenas de exemplares, vendidos avulsos ou por assinatura. O Correio Braziliense, por ser mensal e volumoso, também contava com centenas de leitores, mas sua distribuição era mais ampla, chegando a diversas cidades brasileiras via navio.
Quem fundou a Gazeta do Rio de Janeiro?
A Gazeta foi criada por iniciativa do governo português, sob a administração da Impressão Régia. Seu primeiro redator foi Frei Tibúrcio José da Rocha, um religioso e intelectual de confiança da corte. A direção do jornal sempre esteve alinhada aos interesses do Estado.
Esses jornais tinham liberdade de expressão?
Não. A Gazeta do Rio de Janeiro era submetida à censura prévia da Impressão Régia; só publicava o que o governo autorizava. O Correio Braziliense, por ser impresso em Londres, não sofria censura portuguesa, mas enfrentava dificuldades de distribuição e era frequentemente apreendido quando chegava ao Brasil. A liberdade de imprensa só se consolidou plenamente no Brasil após a Proclamação da República.
Reflexoes Finais
A história do primeiro jornal do Brasil é, na verdade, a história de dois veículos que representam duas faces do jornalismo nascente: o oficialismo e a independência crítica. A Gazeta do Rio de Janeiro, lançada em 10 de setembro de 1808, foi o primeiro periódico a ser impresso em solo brasileiro, servindo como porta-voz da corte e divulgador das ações do governo. O Correio Braziliense, surgido três meses antes em Londres, foi o primeiro a tratar de temas nacionais com liberdade e espírito analítico, pavimentando o caminho para uma imprensa mais plural.
Ambos marcaram o início de uma nova era para o Brasil, que deixava de ser uma colônia isolada e passava a contar com canais de comunicação escrita. Mais do que simples registros de fatos, esses jornais moldaram opiniões, influenciaram decisões políticas e ajudaram a forjar uma identidade nacional. A controvérsia sobre qual é o "primeiro" é, em essência, uma discussão sobre o que significa ser brasileiro em termos de produção cultural e intelectual.
Hoje, ao comemorarmos o Dia da Imprensa em 1º de junho, lembramos não apenas do Correio Braziliense, mas de todos os pioneiros que, com poucos recursos e imensa coragem, deram os primeiros passos do jornalismo no Brasil. A Gazeta do Rio de Janeiro, por sua vez, continua sendo um símbolo do início da imprensa oficial no território nacional. Conhecer essa história é fundamental para entender como a comunicação evoluiu e continua a desempenhar um papel central na vida democrática do país.
