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Interpretacao Publicado em Por Stéfano Barcellos

Quando Foi Lançado o Primeiro Jornal do Brasil?

Quando Foi Lançado o Primeiro Jornal do Brasil?
Endossado por Stéfano Barcellos (imagem ilustrativa)

O Que Esta em Jogo

A história da imprensa no Brasil está diretamente ligada à chegada da família real portuguesa, em 1808. Até então, a colônia era proibida de ter tipografias, e qualquer publicação dependia de autorização da metrópole. O cenário mudou radicalmente quando Dom João VI, fugindo das tropas napoleônicas, transferiu-se para o Rio de Janeiro e, entre as primeiras medidas, autorizou a criação da Impressão Régia. Esse decreto abriu as portas para o nascimento do jornalismo no país.

Mas a resposta para a pergunta "quando foi lançado o primeiro jornal do Brasil?" não é tão simples. Existem duas datas que disputam o título: 1º de junho de 1808, quando o Correio Braziliense começou a circular em Londres, e 10 de setembro de 1808, quando a Gazeta do Rio de Janeiro foi impressa pela primeira vez no Rio de Janeiro. Entender essa diferença exige analisar o que cada um publicava, qual era seu alcance e, principalmente, o que significa "primeiro jornal do Brasil" — se o primeiro feito por brasileiros ou o primeiro impresso em território nacional.

Este artigo explora em profundidade essas questões, apresentando o conteúdo desses periódicos, seu papel político e as razões históricas que fazem do debate sobre a primazia um tema ainda relevante.

Na Pratica

O contexto da imprensa no Brasil pré-1808

Antes de 1808, a Coroa portuguesa mantinha um rígido controle sobre a comunicação na colônia. A chegada de livros, panfletos ou jornais era proibida, e qualquer tentativa de instalar uma tipografia era punida com severidade. O objetivo era impedir a circulação de ideias que pudessem inspirar rebeliões ou contestar o domínio português. Esse cenário só se modificou com a vinda da família real. Em maio de 1808, Dom João VI assinou o decreto que criou a Impressão Régia, permitindo a impressão de papéis oficiais, livros e periódicos. Com isso, os primeiros jornais brasileiros puderam enfim surgir.

A Gazeta do Rio de Janeiro: o primeiro jornal impresso no Brasil

A Gazeta do Rio de Janeiro foi lançada em 10 de setembro de 1808 pela Impressão Régia, sob a direção de Frei Tibúrcio José da Rocha. Era um jornal oficial do governo, com periodicidade de duas vezes por semana (às quartas e sábados). Seu conteúdo era voltado principalmente para notícias da família real, decretos oficiais e acontecimentos políticos e militares da Europa, em especial as guerras napoleônicas. Não havia espaço para críticas ou opiniões independentes; tratava-se de um veículo de propaganda e informação institucional.

A Gazeta circulou ininterruptamente até 1822, ano da Independência do Brasil. Sua importância histórica é inegável: foi o primeiro periódico a ser impresso em solo brasileiro, marcando o início oficial da imprensa nacional. Por muito tempo, a data de seu lançamento foi celebrada como o Dia da Imprensa no Brasil, até que a comemoração foi transferida para 1º de junho, em homenagem ao Correio Braziliense.

O Correio Braziliense: o primeiro jornal brasileiro (impresso no exterior)

Embora tenha saído antes — em 1º de junho de 1808 —, o Correio Braziliense foi impresso em Londres, por iniciativa de Hipólito José da Costa. Hipólito, um brasileiro exilado, usava o jornal como plataforma para criticar a administração portuguesa e defender ideias liberais. Diferentemente da Gazeta, o Correio Braziliense tinha um perfil analítico e político, publicando artigos de opinião, ensaios e denúncias sobre a corrupção, a ineficiência e o autoritarismo do governo colonial. Por isso, é considerado o primeiro jornal brasileiro em termos de autoria e propósito, ainda que não tivesse sido impresso no território.

A discussão sobre qual dos dois merece o título de "primeiro jornal do Brasil" envolve critérios diferentes: a Gazeta foi a primeira a ser impressa no Brasil; o Correio foi o primeiro a ser editado por um brasileiro e a abordar temas nacionais com espírito crítico. Ambos são marcos fundamentais da história da imprensa brasileira.

O que esses jornais falavam? Conteúdos e orientações editoriais

Gazeta do Rio de Janeiro

  • Foco: notícias oficiais, decretos reais, movimentações da corte, guerra na Europa.
  • Tom: favorável ao governo, sem espaço para opiniões divergentes.
  • Público: funcionários públicos, comerciantes, elites ligadas à coroa.
  • Periodicidade: duas vezes por semana.
  • Tiragem: estimada em algumas centenas de exemplares, distribuídos principalmente no Rio de Janeiro.

Correio Braziliense

  • Foco: análise política, crítica à administração colonial, defesa da liberdade de imprensa e do comércio.
  • Tom: independente e combativo, com artigos assinados ou sob pseudônimo.
  • Público: leitores brasileiros e portugueses instruídos, incluindo membros da elite insatisfeitos com o governo.
  • Periodicidade: mensal, com cerca de 100 páginas por edição.
  • Tiragem: chegou a circular em várias cidades brasileiras, apesar da censura.
A diferença de conteúdo reflete a própria natureza dos dois periódicos: um era instrumento do Estado, o outro era ferramenta de oposição. A Gazeta informava; o Correio formava opinião.

Repercussão e legado

A Gazeta do Rio de Janeiro ajudou a consolidar a imagem de Dom João VI como soberano esclarecido e a divulgar as realizações do governo. Já o Correio Braziliense influenciou gerações de jornalistas e políticos, sendo um precursor do jornalismo crítico no Brasil. Ambos foram interrompidos em 1822, quando a Independência e a consequente reestruturação política levaram ao fim de suas publicações.

Hoje, o debate sobre qual é o "primeiro jornal do Brasil" continua. Em 2008, o governo federal reconheceu oficialmente o Correio Braziliense como o primeiro jornal brasileiro, transferindo o Dia da Imprensa de 10 de setembro para 1º de junho. Contudo, a Gazeta do Rio de Janeiro permanece como o marco da imprensa no território nacional.

Principais Características dos Primeiros Jornais Brasileiros

  1. Criação simultânea em 1808: ambos os jornais surgiram no mesmo ano, reflexo da abertura política proporcionada pela vinda da família real.
  2. Censura e liberdade: enquanto a Gazeta atuava sob controle direto do governo, o Correio Braziliense operava em Londres, longe da censura portuguesa.
  3. Suporte técnico: a Impressão Régia era a única tipografia autorizada no Brasil até 1821 – isso limitava a pluralidade de vozes.
  4. Periodicidade: a Gazeta saía duas vezes por semana; o Correio era mensal, mas com volume maior de conteúdo.
  5. Distribuição: a Gazeta era vendida em pontos fixos no Rio de Janeiro; o Correio era enviado por navio para várias cidades brasileiras.
  6. Duração: ambos duraram até 1822, mas por motivos diferentes – a Gazeta perdeu relevância com a Independência, e o Correio encerrou por decisão de seu editor.
  7. Impacto cultural: foram os primeiros veículos a estabelecer uma esfera pública de debate no Brasil, ainda que de forma incipiente.

Tabela Comparativa: Gazeta do Rio de Janeiro vs. Correio Braziliense

CaracterísticaGazeta do Rio de JaneiroCorreio Braziliense
Data de lançamento10 de setembro de 18081º de junho de 1808
Local de impressãoRio de Janeiro (Brasil)Londres (Inglaterra)
Editor/fundadorFrei Tibúrcio José da Rocha (nomeado pelo governo)Hipólito José da Costa (iniciativa privada)
PeriodicidadeDuas vezes por semanaMensal
Conteúdo principalDecretos oficiais, notícias da família real, guerra na EuropaArtigos políticos, críticas à administração colonial, ensaios liberais
Linha editorialGovernista, oficial, sem opinião divergenteCrítica, independente, defensora da liberdade de imprensa
CensuraSofria censura prévia da Impressão RégiaEstava livre da censura portuguesa por ser impresso no exterior
Público-alvoElite carioca, funcionários públicos, comerciantesBrasileiros e portugueses instruídos, simpatizantes do liberalismo
Fim da circulação1822 (com a Independência)1822 (encerramento voluntário)
Importância históricaPrimeiro jornal impresso no BrasilPrimeiro jornal brasileiro (editado por brasileiro e com conteúdo nacional)
Reconhecimento atualConsiderado o primeiro jornal em território brasileiroReconhecido como o primeiro jornal brasileiro (Dia da Imprensa em 1º de junho)

Esclarecimentos

Qual foi exatamente o primeiro jornal do Brasil?

Depende do critério adotado. A Gazeta do Rio de Janeiro foi o primeiro jornal impresso em território brasileiro (10/09/1808). O Correio Braziliense foi o primeiro jornal brasileiro no sentido de ter sido fundado e editado por um brasileiro, com conteúdo voltado para o Brasil, embora impresso em Londres (01/06/1808). Atualmente, o governo brasileiro considera o Correio Braziliense como o primeiro jornal do país.

O que a Gazeta do Rio de Janeiro publicava?

A Gazeta publicava majoritariamente notícias oficiais: decretos reais, nomeações, movimentações da corte, além de informações sobre as guerras napoleônicas na Europa. Não havia espaço para artigos de opinião ou críticas ao governo. Seu conteúdo era institucional e favorável ao regime.

Por que o Correio Braziliense é considerado o primeiro jornal brasileiro, se era impresso em Londres?

Porque seu editor, Hipólito José da Costa, era brasileiro e o jornal foi concebido para circular no Brasil e debater questões brasileiras. Ele tratava de economia, política, administração colonial e liberdade de imprensa. Além disso, por ser impresso no exterior, conseguia escapar da censura portuguesa e oferecer uma visão independente.

Quando foi comemorado pela primeira vez o Dia da Imprensa no Brasil?

Durante muitos anos, o Dia da Imprensa foi celebrado em 10 de setembro, em referência ao lançamento da Gazeta do Rio de Janeiro. Em 2008, no bicentenário dos primeiros jornais, o governo federal alterou a data para 1º de junho, em homenagem ao Correio Braziliense, reconhecendo-o como o primeiro jornal brasileiro.

Quantos exemplares circulavam desses jornais?

Não há registros precisos de tiragem. Estima-se que a Gazeta do Rio de Janeiro tenha circulado com algumas centenas de exemplares, vendidos avulsos ou por assinatura. O Correio Braziliense, por ser mensal e volumoso, também contava com centenas de leitores, mas sua distribuição era mais ampla, chegando a diversas cidades brasileiras via navio.

Quem fundou a Gazeta do Rio de Janeiro?

A Gazeta foi criada por iniciativa do governo português, sob a administração da Impressão Régia. Seu primeiro redator foi Frei Tibúrcio José da Rocha, um religioso e intelectual de confiança da corte. A direção do jornal sempre esteve alinhada aos interesses do Estado.

Esses jornais tinham liberdade de expressão?

Não. A Gazeta do Rio de Janeiro era submetida à censura prévia da Impressão Régia; só publicava o que o governo autorizava. O Correio Braziliense, por ser impresso em Londres, não sofria censura portuguesa, mas enfrentava dificuldades de distribuição e era frequentemente apreendido quando chegava ao Brasil. A liberdade de imprensa só se consolidou plenamente no Brasil após a Proclamação da República.

Reflexoes Finais

A história do primeiro jornal do Brasil é, na verdade, a história de dois veículos que representam duas faces do jornalismo nascente: o oficialismo e a independência crítica. A Gazeta do Rio de Janeiro, lançada em 10 de setembro de 1808, foi o primeiro periódico a ser impresso em solo brasileiro, servindo como porta-voz da corte e divulgador das ações do governo. O Correio Braziliense, surgido três meses antes em Londres, foi o primeiro a tratar de temas nacionais com liberdade e espírito analítico, pavimentando o caminho para uma imprensa mais plural.

Ambos marcaram o início de uma nova era para o Brasil, que deixava de ser uma colônia isolada e passava a contar com canais de comunicação escrita. Mais do que simples registros de fatos, esses jornais moldaram opiniões, influenciaram decisões políticas e ajudaram a forjar uma identidade nacional. A controvérsia sobre qual é o "primeiro" é, em essência, uma discussão sobre o que significa ser brasileiro em termos de produção cultural e intelectual.

Hoje, ao comemorarmos o Dia da Imprensa em 1º de junho, lembramos não apenas do Correio Braziliense, mas de todos os pioneiros que, com poucos recursos e imensa coragem, deram os primeiros passos do jornalismo no Brasil. A Gazeta do Rio de Janeiro, por sua vez, continua sendo um símbolo do início da imprensa oficial no território nacional. Conhecer essa história é fundamental para entender como a comunicação evoluiu e continua a desempenhar um papel central na vida democrática do país.

Para Saber Mais

Stéfano Barcellos
Editor-Chefe
Stéfano Barcellos encontrou seu lugar num território que poucos se arriscam a habitar: a fronteira entre tecnologia e linguagem. Com mais de quinze anos de experiência como desenvolvedor e editor, construiu reputação na curadoria de conteúdo digital no Brasil não por seguir tendências, mas por se negar a enxergar como domínios separados o universo do código ...

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