Muito além da música

  • 10 de novembro de 2020
  • MDBF

                Blues. O nome escolhido para esse ritmo eternizado nos campos de algodão do Mississippi não é em vão; nos Estados Unidos blue não é somente uma cor, mas um termo que expressa tristeza.

– adendo da cultura pop: na animação “Divertidamente”, a personagem que representa a tristeza é azul –

                Não que o blues seja marcado apenas pela dor, ou que necessariamente todas as canções devam ser tristes, mas esse estilo musical nasceu exatamente como um escape do sofrimento causado pela retirada forçada do lar e pela escravidão.

Nos campos de algodão

                A escravidão americana não foi menos brutal que a brasileira. Milhares de pessoas negras foram retiradas de suas casas, separadas de suas famílias e jogadas a jornadas desumanas de trabalho não remunerado e cercado por diversos tipos de violência.

                Porém, como já diz o ditado, é possível arrancar um homem de seu lar, mas não suas raízes, e essas pessoas levaram consigo, para os campos de algodão, sua fé e suas tradições. Foi nesse cenário que os cânticos religiosos africanos foram sendo adaptados à realidade de luta pela sobrevivência, saudade e luta pela liberdade.

                Os novos anseios dessas pessoas torturadas mas ainda cheias de fé deram origem aos primeiros acordes do blues. Não à toa todos os grandes clássicos da história do blues foram eternizadas por pessoas negras.

Alforria

                Apesar do sucesso do blues e de todas as vertentes musicais que surgiram dela, a libertação das pessoas negras, seja nos campos de algodão ou nos campos brasileiros, não representou uma mudança efetiva na vida dessas pessoas.

                Não apenas muitas gerações haviam passado e os originalmente sequestrados de suas terras já não estavam mais vivos para voltar para casa como a libertação dessas pessoas da condição de escravos não aconteceu por uma consciência coletiva de igualdade.

                Nos Estados Unidos os estados do sul se recusavam a libertar seus escravos enquanto no Brasil a elite alegava que a abolição da escravatura levaria o país à ruína.

                Independentemente do desfecho, a realidade dessa população não mudou praticamente nada. A escravidão não deixou de existir, apenas ganhou ares mais modernos, como a precarização do trabalho, a reserva de subempregos para pessoas negras, a segregação e o racismo estrutural que faz vítimas fatais diariamente.

                Por mais absurdo que possa parecer segregação racial em pleno 2020, ela existe e tem renovado sua carga de truculência cada dia.

Black lives matter

                “Vidas negras importam”, essa é a tradução literal do movimento surgido no mesmo país onde as cantigas africanas foram transformadas em blues, e tem sua origem entre 2013 e 2014. O contexto inicial da movimentação foi a absolvição de um policial branco pelo homicídio de um jovem negro em uma abordagem injustificada.

                Entretanto, o que não falta são exemplos de abordagens injustificadas que culminam em mortes de pessoas inocentes – e negras – como o recente caso de George Floyd, sufocado até a morte pelo joelho do policial em seu pescoço. George, antes de morrer, disse a mesma frase proferida por Eric Garner, sufocado com um mata-leão: “I can’t breathe” (“Eu não consigo respirar”).

                Os “casos isolados” de pessoas negras “confundidas” com suspeitos de crimes também são endêmicos no Brasil, como os cinco jovens trabalhadores em um carro fuzilados com 111 tiros sem que qualquer pergunta fosse feita. Tristemente se fôssemos citar todos os casos recentes de pessoas negras assassinadas por serem “confundidas”, certamente teríamos uma lista interminável.

                A luta da população negra contra o genocídio racista nunca teve tréguas e já teve nomes históricos como Nelson Mandela e Martin Luther King Jr e sua icônica e imortal frase “I have a dream” (“eu tenho um sonho”). Infelizmente, “Black Lives Matter” não é o primeiro e certamente não será o último movimento de luta pela própria sobrevivência.

Ao som do blues

                Arte transforma vidas. É por isso que celebramos o blues e valorizamos suas raízes. Muito além da música, o blues carrega uma história de luta por liberdade, saudade e preservação de cultura de todo um povo.

                Quando aplaudimos os artistas, estamos fazendo muito mais do que valorizar a música; estamos reconhecendo e enaltecendo sua história. É pela importância de manter acesa a chama da cultura do blues que nasceu o MDBF. É pela consciência social, pela união e pelo amor entre os povos que mantemos o Festival mesmo impedidos do contato físico.

                Fazemos porque vale a pena.

Texto de Maya Falks

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